domingo, 18 de setembro de 2016

A corrida, os vacilos e a ironia da vida

Corrida, elemento essencial para o homem. Atividade número 1 da vida humana, quem nunca correu? Seja por necessidade, vontade, diversão ou perigo? Correr faz parte da natureza humana assim como respirar. E mesmo assim, às vezes ficamos sem ar...
O que vou contar aqui é a mistura da corrida com a perda do ar, expectativas erradas, como a vida é uma caixinha de surpresas (para o bem e para o mal) e como uma situação inusitada me fez voltar às atividades.

Fui ver o blog esses dias e vi que minha última postagem por aqui data de  Dezembro de 2015, wow! Muito tempo já se passou, não necessariamente muitas corridas, mas foram quase 9 meses de dieta dos posts que já estavam em ritmo desacelerado. E sim, a culpa foi totalmente minha: para os que já acompanham o blog há algum tempo, puderam notar que os últimos anos foram mais dedicados à vida profissional do que para a atividade física. Não é uma escolha boa, mas em alguns momentos temos que tomar decisões que aparentemente não são das melhores, mas que no longo prazo podem ser vistas como as mais coerentes.
Durante estes meses eu realmente reduzi muito o volume de treinos, parei de correr aos sábados e mal tinha vontade para dar aquela corrida de domingo revigorante, por mais saudável e boa que eu sei que é.
Acontece que eu estava numa pegada muito forte, devido à toda essa crise que assolou o país nos últimos anos, o esforço para manter os negócios em dia foi maior ainda, tendo que ter criatividade, bolar planos de recuperação e ações que não poderiam esperar anos para serem feitas, senão o negócio afunda, e aí eu não tinha pique para fazer nada depois do horário, e muito menos nos fins de semana, que já estavam bem ocupados com outros cursos de extensão e estudos dos mais variados.
EIS que, em maio deste ano, tive uma experiência que me fez mudar a forma de ver as coisas...
Como todo bom solteiro, eu estava cadastrado nestas redes de relacionamento, e lá em 2015, tinha visto uma garota na timeline que me chamou a atenção: sorridente, aparentemente carinhosa e com fotos muito bem feitas. Como o seu insta estava linkado no perfil dessa rede, acabei vendo as fotos dela e de cara me atraiu muito seu estilo alegre e descolado de viver a vida. Suas fotos em muitos lugares diferentes, fotos sempre coloridas, e um sorriso que me encantou à primeira vista. Claro, fui obrigado a segui-la no insta, mas ao voltar para esta rede de relacionamentos, notei que o like que eu dei não foi correspondido, mas como eu não tinha expectativas de ser mesmo, segui a vida e toquei a vida normalmente.
Suas fotos eram sempre encantadoras, e o que me chamou a atenção: ela corria! Muitas fotos de provas em SP, medalhas e mais medalhas, e aí comecei a relembrar quando eu era fanático por provas de fim de semana. Taí um daqueles momentos que pensamos: e se desse certo...
Mas como não havia muita frequência nas postagens, minha vida seguia normal como sempre foi nos últimos meses: muito trabalho para distração, algumas saídas e encontros com os amigos e galera da última facu. O trabalho estava me ocupando praticamente o dia todo, havia pouca margem para treinar, sair ou me divertir e isto estava começando a me fazer pensar sobre o real sentido da palavra "viver".
Foi então que, lá pelo fim de maio, estava eu novamente nesta rede de relacionamentos dandos os famosos swipes para a esquerda quando essa garota apareceu. Como eu a acompanhava no Insta, tinha percebido que neste ano ela já estava namorando. Mas agora ela estava por aqui... então... SIM! Ela estava solteiraaaaaa \o/
A expressão foi meio essa mesma, alegre por algo que provavelmente tenha sido triste para ela e o par. Eu a admirava bastante, mas sem expectativas de algo mais. Resolvi dar o swipe para a direita, confirmando que eu gostava dela. Através dessa rede, só podemos saber que a outra pessoa também te interessa se você também mostra interesse por ela, então eu estava tranquilo, pois pensava: Nunca que vai dar match entre eu e ela. Estava em minha zona de conforto.
Foi aí que o mais improvável aconteceu. Um belo dia, recebi uma notificação de que havia um match pra mim. Talvez fosse alguém que eu tivesse dado like na noite anterior, ou qualquer outro dia, e deixei para ver depois, pois estava trabalhando. Foi aí que, no fim do dia, quando acessei o App, tive a grata surpresa: a gata também havia confirmado interesse pela minha pessoa. Pensei: Meu, quando é que isso ia acontecer??? Não pode ser!!! E foi...
... Eu, não acreditando muito no porquê daquele match, deixei para conversar alguns dias depois, esperando um unmatch ou algo assim, uma mensagem do tipo "desculpe, foi engano". Mas não foi, rs. Resolvi puxar conversar depois de alguns dias, e me lembro bem que estava muito receoso, pois desde o início pensei comigo mesmo: "Isma, você vai se machucar, não siga em frente com isso". Mas o teimoso aqui, como sempre, segue o seu instinto e inicia o bate papo.
Começamos a conversar e, como algo mágico, comecei a perceber tantas similaridades em nossos gostos, preferências e fluxo que me deixar levar pelo estilo dela, mais jovial, social media e despojada. Conversávamos altas horas da noite, mensagens de áudio, muitos assuntos, viagens, gostos e experiências. Comecei a criar naquele cara que não esperava muito das pessoas uma esperança de que finalmente tinha encontrado alguém que eu combinava.
Os dias foram passando após maio, os bate papos aumentando e nos adicionamos a praticamente todas as redes sociais em que estávamos cadastrados. Parecia que tudo ia bem sob a minha perspectiva, foi então que decidimos nos encontrar, e não foi nada mais nada menos que um passeio de bike por aí.
Poxa, depois de muitos anos, finalmente comecei a esperar que alguém realmente tinha os mesmos gostos que eu (Pedal, corrida, academia, cinema, cultura, etc.) e eu estava a poucas horas de conhecer essa pessoa especial. Pensei.
E então, na Paulista, marcamos para nos conhecermos e pedalar por ai.
Não posso dizer que não gostei: quando ela sorriu, pensei: "Poxa, você está aqui mesmo! Você é real!!!". Nos conhecemos e já fomos logo andar pela cidade, pois já eram 10 horas. Passamos praticamente o dia inteiro juntos, conversando (agora pessoalmente) sobre o que já falávamos virtualmente, mas agora era real, ela estava do meu lado, um pouco distante, mas estava. Foi aí que notei que a proximidade não era tão querida assim. Havia alguma barreira invisível que eu não conseguia entender muito bem, mas que estava ali. Seu sorriso não era dos mais alegres quando me viu. Realmente, aproveitamos bastante o dia, mas não havia "algo mais" ali entre a gente. Ao menos foi o meu sentimento...
Estava um pouco feliz e um pouco triste após isso: percebi que nos conhecermos foi bom, mas não foi "bom demais"! Talvez minha expectativa pudesse ter parado naquele dia, eu podia ter entendido os sinais que as coisas não iam passar daquilo e seguir a vida, mas o teimoso aqui mais uma vez começou a achar que podia rolar algo mais entre a gente.
Talvez aí foi o ponto crucial do meu erro: acreditar que podia dar certo. Por influência dela, voltei a correr com maior frequência, pois comecei a ver suas fotos passadas, e enquanto eu estava trabalhando, ela havia feito várias provas das quais eu também fazia, as havia abandonado por conta do vício de fim de semana: pesquisa e trabalho extensivo. Foi uma contribuição indireta que ela me fez monstruosa, pois eu não via mais motivos para continuar a correr, pois o meu modelo mental atual estava muito focado no mundo dos negócios.
Ela também é adepta da academia, e passou a me mandar um par de fotos em que ela estava na academia, treinando. E para piorar (ou melhorar), ela fazia a mesma rede de academias que eu. Pensei: "perfeito! E se treinarmos juntos, passarmos a praticar atividades em conjunto. Nossa, que demais".
Foi nessa pegada fitness que comecei a me apaixonar mais por ela. Isso realmente me fez criar uma vontade maior de voltar à academia, praticar mais voltar à vida. Aí entrou aquela parte que comentei um pouco acima das descobertas sobre viver melhor. Ela me mostrava um estilo de vida mais alegre, vívido e feliz, algo que eu já estava buscando a algum tempo. Muito embora eu sabia das minhas restrições com ela, eu ainda tinha aquele pequeno fio de esperança que algo daria certo.
Em paralelo, passei a atualizar o guarda roupa com roupas novas de corrida, os treinos aos domingo e na semana, e passei a me sentir mais feliz, as rotinas voltavam a ter um componente melhor em qualidade de vida: alguém para conversar no fim do dia, e as atividades físicas voltando a fazer parte do Outlook :P.
Na mente da gente, tudo é possível, não é? Pois é, eu sempre aprendo essa lição mais dia ou menos dia. O mundo das expectativas é bem traiçoeiro, ainda mais para quem tem muita criatividade ou espera demais de algumas situações.
Nossos contatos continuavam, bem. Fui ao segundo encontro, que não era fitness, mas foi muito agradável, conheci muita gente legal e conversamos por muito tempo também. Agora adivinhem qual foi o terceiro encontro??? SIIIIIIIIIIIIIIIIIM, isso mesmo: UMA CORRIDA!
Formos na Night Run que aconteceu na USP em agosto desse ano. Nossa, primeira corrida do ano em agosto, quem te viu quem te vê, hein Isma? Aquele cara que costumava fazer uma corrida por fim de semana agora demorou 8 meses para fazer outra prova (Não estou contando aqui as corridas da Bravus, gente). Pois é, além de tudo essa gatinha me fez voltar para a corrida de rua: como não amar assim???
Como ela não estava preparada para os 10k, eu não me opus de forma alguma de fazer os 5k junto com ela, até porque estava em ótima companhia, o tempo agradabilíssimo e eu tinha feito 10k da Bravus em São José dos Campos no mesmo dia, pela manhã.
Pronto: está formada a fórmula da apaixonite pro Isma: uma gata que gosta de marketing, que corre, pedala, faz academia, se cuida e quer um estilo de vida saudável, além de bonita e inteligente. O que mais eu queria? Nada, estava montado o meu arquétipo de mulher perfeita.
E então vem o capítulo do romance que o mocinho se dá mal...

Eu vinha nutrindo toda essa paixão por ela, mas a contrapartida não tinha nada de recíproco. Talvez porque, quando você está apaixonado, não consegue ver os sinais de negação (logo eu, muito estudioso dos sinais do comportamento humano, me deixei levar). Não havia a mesma empolgação na fala da época em que não nos conhecíamos pessoalmente, nos últimos meses eu que iniciava os assuntos e que procurava temas e conversas para falar com ela. Pelo lado dela, eu era uma pessoa que ela havia conhecido, mas que não atendia às expectativas. Pelo meu lado, ela era alguém por quem eu esperava por tanto tempo. Ah, românticos...

E os treinos estavam voltando à rotina: terça no Ibira, quinta no Parque do Povo, quarta, sábado e domingo na academia e domingo, corrida pela cidade. Voltei a fazer meus 10,15 e 20k que tanto estava acostumado. Até a alimentação eu passei a controlar mais depois das nossas trocas de fotos de pratos no melhor estilo #instafood.
Mas então, como num passe de mágica, agosto terminou, e com ele esse nosso "lance" por assim dizer. Nosso último encontro foi um pouco estranho, não havia nem nunca houve foto de nós juntos. Parecíamos dois desconhecidos andando pela cidade maravilhosa: eu com a minha paixão guardada no peito, e ela com um cara que conheceu por uma dessas redes sociais. Senti que não havia reciprocidade entre a gente, e senti na pele que o que eu estava começando a criar dentro de mim deveria ser destruído ali mesmo, sem expectativas de que algo desse certo.

Meu maior erro neste caso foi projetar o que me faltava. Comecei a desenhar uma garota na qual havia muito mais da imaginação do Isma, do que propriamente ela realmente sentia por mim. Não é a primeira vez que isto acontece, por isso, agosto foi um mês intenso de aprendizado, onde comecei o mês realmente muito apaixonado, e terminei definitivamente desacreditado no amor.
E o porquê do título "A ironia da vida"? Oras, foi através desta experiência desastrosa do amor que voltei pro mundo da atividade física. Na minha vida a corrida exerce funções alavancadoras em vários momentos, e neste caso, posso afirmar que uma triste história de amor não correspondido resultou no meu reencontro com a corrida de rua, de tudo que passei nestes quatro meses, foi a única coisa que ficou. Com isso, eu que sempre via muito mais o lado negativo destas histórias, neste caso fui obrigado a agradecer ao destino por ter me proporcionado uma situação que a princípio é irônica, mas me fez retomar um estilo mais saudável de vida.

Também passei a entender um pouco mais sobre socialização. O legado dessa garota em minha vida me fez ser mais acessível às outras pessoas, entender como contribuir com elas de modo a gerar algo positivo na comunidade e ao mesmo tempo se ajudar com o contato entre pessoas diferentes. Antes avesso à estes tipos de contribuição, durante este tempo me exercitei bastante no sentido de começar a ter experiências antes improváveis para o Isma, como ir à uma festa sozinho, participar de um encontro com desconhecidos, sorrir sempre que possível e levar uma vida mais light, sem a neura de ser sempre o primeiro ou o melhor.
Incrível como a corrida na minha vida é além de simplesmente por um tênis e sair por aí: a corrida permeia muitas da minhas experiências pessoais, boas e ruins e dessa vez um fator externo é que me fez voltar à ela. Se não fossem as fotos dela em tantas provas, sua dedicação por ter um estilo de vida saudável e suas medalhas, eu não teria passado por isso. Hoje não nos falamos mais, ambos estamos bloqueados em todas as redes em que nos adicionamos, e assim será pelo resto da vida. Ficam aqui os escritos e não ditos, e assim seguimos, correndo pela vida.
Isma,

Nenhum comentário: